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Gargalo e capacidade

Automatizar uma etapa não é eliminar o gargalo

Uma empresa automatiza o orçamento, o agendamento e o envio de e-mails, e a fila de entregas continua do mesmo tamanho. O motivo está em qual etapa foi automatizada.

· 5 min de leitura

O projeto foi um sucesso por qualquer critério que alguém tenha anotado. O orçamento que levava um dia sai em vinte minutos. O agendamento ficou automático. O cliente recebe e-mail a cada mudança de status. Seis meses depois, a empresa entrega exatamente o mesmo número de trabalhos por mês que entregava antes. Ninguém mentiu sobre os ganhos. Eles só aconteceram no lugar errado.

Esse é um dos desfechos mais comuns em projetos de automação de processos em empresas de serviço técnico. Não por falha da ferramenta, mas porque a escolha do que automatizar seguiu o critério de "onde dói mais" ou "onde é mais fácil", e não o critério de "onde está o limite".

Por que acelerar uma etapa nem sempre acelera a empresa

Imagine uma entrega que passa por cinco etapas em sequência: recebimento do pedido, coleta de dados, análise técnica, montagem do documento e emissão. Cada etapa tem uma capacidade máxima por mês. A empresa inteira só consegue entregar o que a etapa mais lenta consegue processar.

Se a análise técnica, feita pelo especialista, comporta vinte trabalhos por mês, não adianta o recebimento comportar duzentos. Os trabalhos extras se acumulam na frente da análise. Automatizar o recebimento deixa essa etapa mais rápida, mais barata e menos sujeita a erro, o que tem valor. Mas o número de entregas continua sendo vinte.

Pior: acelerar uma etapa que vem antes do gargalo pode aumentar a fila na frente dele. O pedido entra mais rápido, espera mais tempo, e a percepção do cliente sobre o prazo piora.

Automatizar uma etapa acelera aquela etapa. Só muda a capacidade da empresa quando a etapa é a que limita a entrega.

O mapa de capacidade por etapa

Antes de qualquer projeto de automação, vale fazer um mapa simples. Ele cabe numa folha e usa números que a equipe sabe responder.

  1. Liste as etapas. Do pedido à entrega, em ordem. Use de quatro a oito etapas, sem detalhar demais.
  2. Anote quem faz cada uma. Nome ou função. Marque as etapas que só uma pessoa habilitada pode fazer.
  3. Anote as horas por trabalho em cada etapa. Meça durante duas semanas se possível.
  4. Anote as horas disponíveis por mês de quem faz cada etapa. Descontando o que não é entrega.
  5. Calcule a capacidade de cada etapa. Horas disponíveis divididas pelas horas por trabalho.
  6. Identifique o menor número. Essa é a etapa que define quantas entregas a empresa faz por mês.

Um exemplo hipotético, preenchido:

EtapaQuem fazHoras por trabalhoHoras disponíveis no mêsCapacidade mensal
Recebimento e orçamentoComercial1120120
Coleta de dados em campoTécnico de campo314046
Análise e montagem do documentoEspecialista612020
Revisão e emissãoEspecialista1(mesmas horas)(mesma pessoa)

Repare na última linha. Quando o mesmo especialista faz duas etapas, as horas dele precisam ser somadas: seis mais uma, sete horas por trabalho. Com 120 horas disponíveis, a capacidade real é de cerca de 17 entregas por mês. Automatizar o orçamento, nesse exemplo, transforma uma etapa de capacidade 120 numa de capacidade 500. O número de entregas continua 17.

Três armadilhas na escolha do que automatizar

Automatizar o que é visível

Etapas com interface para o cliente (orçamento, agendamento, comunicação) são as que mais aparecem e mais geram reclamação. Por isso viram as primeiras candidatas. Melhoram a experiência, mas raramente são o limite de volume.

Automatizar o que é fácil

Ferramentas prontas resolvem bem tarefas genéricas: formulário, notificação, integração entre aplicativos. A etapa do especialista, ao contrário, envolve o método técnico da empresa, com regras, exceções e cálculos específicos. É mais difícil de sistematizar e por isso fica para depois, que às vezes nunca chega.

Automatizar uma parte do trabalho do especialista e manter o resto igual

Dar ao especialista uma ferramenta que gera um gráfico ou preenche uma tabela ajuda. Mas se ele continua produzindo o documento inteiro, abrindo arquivos, transcrevendo dados e conferindo tudo à mão, a economia é de minutos numa entrega de horas. O especialista continua no caminho crítico, só um pouco mais rápido.

A diferença entre acelerar e mudar o teto

Existe uma diferença de natureza entre acelerar uma etapa e tirar a pessoa escassa do caminho crítico. No primeiro caso, o especialista continua produzindo cada entrega, com alguma ajuda. No segundo, o sistema produz o documento a partir dos dados e do método da empresa, e o especialista recebe uma versão pronta para revisar, corrigir e assinar.

A primeira abordagem reduz as horas por entrega em uma fração. A segunda muda a ordem de grandeza, porque o papel do especialista passa de autor a revisor. Ele continua responsável tecnicamente e continua sendo indispensável. A diferença é que a hora dele passa a cobrir várias entregas.

Para saber qual abordagem cabe na sua operação, volte ao mapa e olhe só a linha do especialista. Divida as horas dele por trabalho em duas colunas: horas em atividades que seguem regra conhecida (transcrever, calcular por fórmula, montar seções padronizadas, conferir campos obrigatórios) e horas em atividades de julgamento (interpretar, decidir, ajustar para o caso). Quanto maior a primeira coluna, maior o ganho possível ao tirar o especialista do caminho crítico.

Comece pelo menor número

Automação de processos é investimento, e investimento precisa de critério. O mapa de capacidade por etapa mostra onde está o limite em uma tarde de trabalho, e evita gastar meses acelerando o que já tinha folga. Comece pelo menor número da tabela.

Quando esse número está na mão do especialista, o trabalho da Ezera é construir o sistema que leva a parte determinística da etapa dele, para que ele revise em vez de produzir.

Vamos olhar o seu gargalo.

Uma conversa de trinta minutos costuma bastar para saber se existe teto de capacidade na sua operação e se tecnologia resolve. Se não resolver, a gente diz.

Conversar sobre o seu gargalo