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Laboratório de calibração e ISO/IEC 17025: onde o certificado consome o técnico

A bancada não é o único gargalo do laboratório. Depois da medição, o técnico ainda monta, confere e emite o certificado, item por item.

· 6 min de leitura

Quanto tempo o seu laboratório leva entre o fim da medição e o certificado liberado? Se a resposta é "depende de quem está livre para emitir", o gargalo já não está na bancada. O instrumento foi calibrado, os dados existem, o cliente espera, e o certificado de calibração ISO 17025 aguarda um técnico que sabe montá-lo e um signatário autorizado que sabe aprová-lo.

Laboratórios costumam medir a capacidade em horas de bancada e em padrões disponíveis. Poucos medem as horas gastas depois da medição: transcrever leituras, calcular incerteza, montar o documento, conferir, corrigir, emitir. E essas horas são, quase sempre, das mesmas pessoas qualificadas que deveriam estar calibrando.

O que a norma pede do certificado

A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 trata do relato de resultados na seção 7.8. Sem pretender substituir a leitura da norma, vale lembrar o essencial, porque é isso que define o trabalho de emissão.

Os resultados precisam ser analisados criticamente e autorizados antes da liberação, por pessoal autorizado para isso. Todo relatório traz um conjunto comum de informações: título, identificação do laboratório, identificação única do documento, cliente, método utilizado, descrição inequívoca do item, datas relevantes, resultados com as unidades de medida, desvios do método quando houver, e a identificação de quem autorizou.

No caso específico do certificado de calibração, a norma acrescenta, entre outros pontos: a incerteza de medição na mesma unidade do mensurando ou em termo relativo a ele; as condições, como as ambientais, que tenham influência nos resultados; e a declaração de como as medições são metrologicamente rastreáveis. Quando há declaração de conformidade, a regra de decisão usada precisa estar documentada, considerando a incerteza. E qualquer alteração depois da emissão vira uma emenda identificada, com referência ao certificado original.

Há ainda dois requisitos que pesam no processo, não só no documento. Os registros técnicos precisam permitir rastrear alterações até as versões anteriores, com data e responsável. E, se o laboratório usa um sistema de informação para coletar, processar, registrar ou relatar dados, esse sistema precisa ser validado quanto à funcionalidade antes de entrar em uso, e cálculos e transferências de dados precisam ser verificados de forma sistemática.

Ou seja: o certificado tem conteúdo largamente previsível. Previsível, aqui, quer dizer sistematizável.

Onde vai o tempo do técnico

Siga um item do recebimento à emissão e anote quem faz o quê. O desenho típico tem estas etapas depois da bancada:

  1. Transcrever leituras do equipamento ou da folha de dados para a planilha de cálculo.
  2. Selecionar o padrão usado, buscar o certificado vigente dele e os valores de correção.
  3. Calcular erros, correções e a incerteza expandida, normalmente numa planilha que alguém montou anos atrás.
  4. Montar o certificado: dados do cliente e do item, método, condições ambientais, tabela de resultados, declaração de rastreabilidade.
  5. Conferir tudo (outra pessoa, de preferência).
  6. Analisar criticamente e autorizar a liberação.

As etapas 1 a 4 são determinísticas: dados de entrada definidos, regras de cálculo validadas, formato do documento conhecido. A etapa 5 existe justamente porque as etapas 1 a 4 são manuais e sujeitas a erro de digitação e cópia. A etapa 6 é a única que exige julgamento técnico e autorização formal.

A conta do seu laboratório

Use dados de um mês típico:

  • C: certificados emitidos no mês.
  • T: minutos de técnico por certificado nas etapas 1 a 4.
  • V: minutos de conferência por certificado (etapa 5).
  • X: percentual de certificados que voltam para correção antes ou depois da emissão, e minutos gastos em cada retrabalho.

Horas mensais pós-bancada = C × (T + V) ÷ 60, mais o retrabalho. Agora pergunte: se essas horas voltassem para a bancada, quantas calibrações a mais caberiam no mês, com a mesma equipe e os mesmos padrões?

Um exemplo hipotético: um laboratório que emite 300 certificados por mês, com 20 minutos de montagem e 10 de conferência por certificado, gasta 150 horas mensais depois da bancada, sem contar retrabalho. É praticamente um técnico em tempo integral fazendo papel. Os seus números vão dizer outra coisa, mas a conta é a mesma.

Some a isso o custo menos visível: o certificado que sai com erro e precisa de emenda. Além do retrabalho, ele aparece em auditoria e em reclamação de cliente.

O que um sistema faz, e como ele próprio entra no sistema de gestão

Num fluxo sistematizado, a leitura chega direto do equipamento ou de um formulário de bancada; o padrão é selecionado de um cadastro que já conhece a validade de cada certificado de calibração do padrão e bloqueia o uso de um vencido; o cálculo de incerteza segue o procedimento validado do laboratório, com o orçamento de incerteza visível; o certificado é montado com os campos que a norma exige, numeração única e controle de versões. Qualquer alteração deixa rastro de quem, quando e o quê.

O técnico deixa de transcrever e passa a conferir exceções: a leitura fora do esperado, o item com histórico estranho, o resultado próximo do limite de conformidade. O signatário autorizado continua analisando e liberando, agora com tudo à vista. O especialista não sai do processo: vira o controle de qualidade dele.

Um cuidado que não é opcional: pela própria norma, esse sistema precisa ser validado antes de entrar em uso. Isso significa demonstrar, com casos de teste documentados, que os cálculos batem com os da planilha validada e que os certificados saem completos. Quem desenvolve deve entregar essa validação junto, ou pelo menos o material para o laboratório executá-la. Um sistema sem evidência de validação troca um risco por outro.

Checklist rápido

  • As planilhas de cálculo de incerteza estão validadas, protegidas e com versão controlada?
  • O laboratório sabe dizer qual versão da planilha gerou cada certificado emitido?
  • Existe bloqueio para uso de padrão com calibração vencida, ou isso depende de alguém lembrar?
  • Quantos certificados tiveram emenda nos últimos doze meses, e por qual motivo?
  • Quanto tempo leva, em média, entre o fim da bancada e o certificado liberado?

Bancada cheia, emissão em dia

O certificado de calibração ISO 17025 é um documento com conteúdo definido, cálculos validados e responsabilidade clara. Essa combinação é exatamente o que torna possível sistematizá-lo sem perder controle. As horas que hoje vão para transcrever e montar podem voltar para a bancada, que é onde o laboratório fatura. É esse o trabalho que a Ezera faz com laboratórios acreditados ou em processo de acreditação: sistema na parte determinística, validação documentada, técnico e signatário no julgamento.

Vamos olhar o seu gargalo.

Uma conversa de trinta minutos costuma bastar para saber se existe teto de capacidade na sua operação e se tecnologia resolve. Se não resolver, a gente diz.

Conversar sobre o seu gargalo